terça-feira, 11 de março de 2014

Tragédia de Jaci-Paraná

Subindo o rio numa canoinha

Em 1996, conheci a "ex" Reserva Extrativista (Resex) Jaci Paraná, que acaba de ser "descriada" em Rondônia. Subi o rio Jaci numa canoinha de madeira com motor rabeta, pilotada pelo Pedro Schumman "Carioca", presidente da Associação dos Moradores da Resex, com a companhia do "Maranhão", do Fórum de ONGs de Rondônia.

Pedro subiu o rio contando da sua vida em diferentes ocupações, do garimpo submerso nas dragas do Rio Madeira ao "corte de seringa". Contava isso nas paradas nas casas dos ribeirinhos, pois a viagem era marcada pelo popopó do motor rabeta, que montado da popa da canoa tem uma longa haste cuja ponta é uma hélice. A conoinha era manobrada rio acima ao longo da margem, procurando evitar a correnteza mais forte e os bancos de areia, enquanto eu observava a mata que se erguia como um imenso paredão nas curvas do rio.

"qual é a mulher que vai querer morar neste inferno?"

Uma das principais lembranças que tenho daquela viagem de 3 dias rio acima e 2 dias rio abaixo era a imensa quantidade de piuns (borrachudos) que infernizava a vida dos moradores e a nossa viagem. A maior parte das colocações era habitada por homens sós, morando em cabaninhas de paxiúba (uma palmeira), com as paredes de palha de palmeira, sem janelas, para diminuir os piuns. Os seringueiros mal praticavam agricultura. Perguntamos a um deles por que não era casado, e ele respondeu com uma pergunta: "qual é a mulher que vai querer morar neste inferno?"

Uma exceção eram duas irmãs, donas da melhor casa da Resex, e a única, em meus anos de trabalho em Rondônia e no Acre, a ter geladeira (a gás) e água encanada (bombeada do rio). Eram as mulheres mais cobiçadas da Resex, talvez pela prosperidade, talvez por serem as únicas solteiras...

Não era uma realidade simples. 

Cadáveres vegetais e o fim da Resex

Em 2006, dez anos depois, passei por ali de novo, sem entrar na Resex, só passando pelo povoado por onde 10 anos antes eu passava toda semana, em viagens semanais ao Acre. Paramos num posto de gasolina para abastecer e esticar as pernas. Quando abri a porta do carro, um cheiro insuportável de carniça invadiu minhas narinas. Mas não era carne podre; era madeira - centenas ou milhares de toras e muita madeira serrada numa madeireira próxima. Você não pensa que uma árvore derrubada cheira a cadáver, só mais suave, mas quando junta tantos cadáveres de árvore, você sente no ar.

2014, quase mais uma década, a Resex não existe mais. É uma pena, apesar de não surpreender, pois não havia condições de vida para uma vida comunitária ali em 1996. Se era para conservar a floresta, talvez fosse Resex uma categoria de unidade de conservação inadequada. Talvez uma Floresta Estadual tivesse sido mais adequada. Mas quem disse que isso iria prevenir a tragédia de Jaci-Paraná?

Triste...

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